

BAHIA TODO DIA – O Brasil é o 3º país em número de cirurgia, ficando atrás dos estados Unidos e China. A que se deve isso?
JOSÉ AMANDIO– Houve um aumento considerado tanto do numerode cirurgia como do acesso. Hoje está mais acessível por conta do poder econômico das classes C e D, o que tornou a cirurgia plástica mais factível. Antes era difícil para quem tinha um poder aquisitivo baixo, mas hoje em dia existe linha de crédito e a pessoa consegue se organizar, poupar o dinheiro necessário para se submeter ao procedimento cirúrgico. Hoje se consegue o que antes era inacessível.
BTD – Mas, mesmo antes da ascensão das classes C e D, a cirurgia plástica já era muito procurada no Brasil desde o final da década de 1990.
Amandio– São vários fatores que contribuíam pra isso. Numa região tropical justificaria parte da cirurgia. A gente vive com exposição maior do corpo. Com esse culto ao corpo, as pessoas querem se sentir mais belas. Tanto que houve um boom das academias, associado a métodos cirúrgicos e não cirúrgicos para melhoria estética. Associado a isso, um dos maiores pilares da cirurgia do Brasil e mundial, doutor Ivo Pitangui, foi fundamental na divulgação da cirurgia. Ele trouxe visibilidade para o Brasil. Lembro-me de princesas, campeões da Formula I, como Nick Lauda, que foram operados pelo doutor Pitanguy. Isso fez do Brasil referência de cirurgia.
BTD – O senhor falou de doutor Ivo Pitanguy, mas agora tem um outro nome, o do doutor Robert Rey , mais conhecido como Dr. Hollywood, que tem um programa sobre cirurgia na Rede TV. O que o senhor acha desse tipo de programa?
Amandio – Eu discordo. Qualquer tipo de sensacionalismo relacionado à medicina deve ser visto com parcimônia e critério. Divulgar a medicina como uma coisa banal, sensacionalista e com exposição tem que passar pelo crivo da ética médica, que hoje está cada vez mais rigorosa. Temos que adotar o código de ética tanto em prol da medicina quanto em prol do paciente. Programa que expõe de forma antiética o profissional termina expondo o procedimento em si mais do que os benefícios que a cirurgia traz ao paciente. Ele (Robert Rey) agrega uma imagem não muito positiva da cirurgia e da medicina em geral.
BTD- Você se refere sobre a exposição da vida dos médicos
Amandio - Que fosse a historia dele, exposição da vida dele, tudo bem. Eticamente no Brasil a gente não pode mostrar a foto do paciente, imagine mostrar o paciente sendo operado. Cada país tem um código de ética. Esse próprio cirurgião (Dr. Rey) faz propaganda de uma cinta que ele apresenta. Imagine eu, doutor Amandio, fazendo propaganda de um sutiã que eu inventei para aumentar os seios, por exemplo. Esse formato comercial não é visto com bons olhos pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
BTD – Já que o código de ética não permite essa exposição, o que a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica vem fazendo para modificar o formato do programa?
Amandio - Existem manifestações da Sociedade, mas esse tipo de programa deve criar receita grande para a emissora que o exibe e eles terminam mantendo isso. Tirar isso não e uma coisa que passa por critérios éticos, jurídicos e políticos. O que a Sociedade pode fazer é cobrar, se manifestar, e isso ela faz. Tem solicitação de suspensão e retirada do programa do ar, mas não é a Sociedade que pode fazer isso, não é ela que vai dizer o que é ético ou não, o que as pessoas devem assistir ou não.
BTD - De acordo com uma pesquisa divulgada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia e Estética, os procedimentos mais procurados são a lipoaspiração e colocação de silicone na mama. No seu consultório, especificamente, quais são as cirurgias mais procuradas?
Amandio - Continuam sendo essas duas, mas varia de época. No caso da lipo, ela é quase sempre associada à outra cirurgia, a exemplo da abdominoplastia, da dermolipectomia (retirada de pele e gordura) de coxa. A lipo termina sendo o procedimento que fazemos em maior quantidade porque está quase sempre associado a outros procedimentos.
BTD – Existe um limite para o tamanho do silicone. Quem impõe esse limite, a paciente ou o médico?
Amandio- Os dois. Aliás, essa pergunta é bem pertinente. Qual é a função do médico? O médico faz um juramento de auxiliar o paciente. Ele quer salvar vida, se possível curar e, se não der, aliviar a dor. Na plástica, o médico quer melhorar a função estética e, como médico, eu não posso ser contra isso. Se retiro entre 50% e 80% da mama de uma paciente que tem um quilo em cada lado, para que ela viva com mais conforto, sem dores, como é que eu vou colocar uma prótese de 500 ou 800 ml, se eu sei que vou trazer problema para ela? Essa não é a função do médico.
BTD – O que a paciente deve perguntar numa primeira consulta com o cirurgião?
Amandio - Imagino que até chegar a consulta, o paciente já tenha alguma informação sobre o médico que a atendeu. Mas o primeiro passo é ver no site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica se ele é mesmo cirurgião plástico. Não é incomum ouvir que o profissional que fez uma cirurgia não está habilitado para tal. Recentemente, o Conselho Federal de Medicina trouxe o seguinte dado: 90% dos processos em cirurgia plástica são contra médicos que não são especialistas. Isso não é incomum. O paciente tem que ter referência. Ela pode ter acesso a informações de outros pacientes. Depois de conhecer a qualificação do médico, o paciente deve discutir com ele tudo o que vai acontecer, desde os benefícios até os riscos cirúrgicos. Não existe procedimento cirúrgico de risco zero, 100% seguro. Todos vão ter vantagem e risco. Tentar entender as limitações e o alcance de tais procedimentos. O médico pode fazer uma cirurgia tecnicamente perfeita e a paciente se frustrar. O médico tem que saber das expectativas do paciente, que por sua vez precisa saber das limitações, entender que pode alcançar ou não as suas expectativas. O paciente tem que fazer todos os exames pré-operatórios, tem que ser feitas as investigações necessárias, seguir as orientações pós-operatórias. Isso fará com que ela tenha chance de maior sucesso.
BTD – O que é feito quando o paciente não gosta do resultado da cirurgia?
Amandio - O resultado é subjetivo. A grande dificuldade é colocar a expectativa do paciente dentro da realidade. O médico não vai prometer nada que não possa cumprir. Se o paciente estiver desejando além do que é possívele, por alguma intercorrência, se frustrar no resultado por complicação no pós-operatório, é possível que se faça o que chamamos de refinamento de cicatriz. Agora, se a motivação para fazer a cirurgia passa por outros valores, a exemplo de uma crise no casamento, quando a mulher se queixa de que o parceiro não a ‘procura’ e supõe que isso seja por conta do corpo - da barriga ou da mama -, às vezes se frustra porque mesmo fazendo a cirurgia o parceiro continua sem procurá-la. Neste caso, a situação se complica porque além de continuar sem o parceiro, ela agora tem uma cicatriz.
BTD – Mas em casos como esses, além da cirurgia a paciente deve também fazer terapia?
Amandio- Sempre que é preciso a gente encaminha para a terapia. Às vezes, o paciente não tem tempo para se preparar paro procedimento, mas com a experiência a gente começa a perceber as nuances e, quando necessário, pedimos para que faça análise. Já suspendi cirurgias porque o paciente não estava psicologicamente preparado.
BTD – Já que tocamos nessa questão da terapia, não é difícil sair na mídia matérias sobre mulheres que procuraram a cirurgia com o intuito de ficar com a cara da Angelina Jolie e até da boneca Barbie. Como vocês lidam com isso?
Amandio – Há limitações e cabe o cirurgião chamar o paciente à realidade. Se chega uma paciente com 1,70 e 90 quilos e quer ficar com o corpo de Fernanda Lima, por exemplo, aconselho a ela chegar ao peso dela e aí podemos chegar a um resultado próximo ao que ela quer. A gente chega a expectativa dentro da realidade do paciente. A cirurgia tem que proporcionar a harmonia. Mudar muito a característica do paciente além de causar um impacto psicológico, pode criar aberrações. Um exemplo é Michel Jackson.
BTD – Há pessoas que fazem dezenas de cirurgias. No Brasil, a funkeira Tati Quebra Barraco se submeteu a 19 procedimentos cirúrgicos. A modelo Ângela Bismarck, 41. Como o senhor encara esse tipo de obsessão? São pessoas viciadas em cirurgia?
Amandio - Vou colocar essa questão como algo pessoal, como eu trabalho, como aprendi com meus professores e como outros colegas também trabalham. Com a experiência, a gente começa a perceber alterações no paciente, pequenos desvios de personalidade. Uma vez chegou aqui no consultório uma paciente muito bonita, morena, alta, esguia, entre 28 e 32 anos. Na entrevista, perguntei em que eu poderia ajuda-la e ela disse ‘em tudo’. Daí começou a enumerar as cirurgias que queria fazer. Eu, então, perguntei se ela realmente achava que precisava de tudo aquilo, sendo uma mulher bela. Essa foi uma paciente em que eu pedi avaliação psicológica.
BTD – Ela fez a avaliação?
Amandio – Não sei. Ela não voltou mais ao consultório.
BTD – Há uma discussão antiga sobre o local em que uma cirurgia deve ser feita, se em clínica ou hospital. Qual é o local mais indicado?
Amandio – O local a ser feito depende do porte e do tempo da cirurgia, se vai ser preciso usar a UTI e isso é uma determinação dos conselhos regionais de medicina, das associações médicas e da Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A cirurgia plástica é como qualquer outra cirurgia. Se for um paciente jovem, sem problema de saúde e for tirar um sinal no rosto, por exemplo, posso fazer ambulatorial. A unidade tem que ter estrutura física e com suporte para alguma intercorrência. Tem que ter ambulância para transferir o paciente, suporte de ventilação (para entubar o paciente). Quando se montou a estrutura dos ‘hospitais-dia’ foi determinado os procedimentos que podiam ser feitos neles. É óbvio que eu não vou operar uma paciente de 90 anos, diabética e infartada em um hospital dia, que não tem UTI. Uma cirurgia complexa, com paciente de risco é feita em hospital de grande porte. Se fosse exigido que um ‘hospital-dia’ mantivesse uma estrutura de UTI , o inviabilizaria completamente.
BTD – A procura dos homens pela cirurgia plástica é pequena?
Amandio – A proporção de mulheres é ainda maior, tanto na parte estética quanto na reparadora. No meu consultório, a proporção é de 70% a 80% de mulheres.
BTD – Quais os procedimentos que os homens mais procuram?
Amandio - Os homens procuram desde o tratamento para calvície a outros procedimentos. Hoje com as cirurgias bariátricas, muitos procuram também para retirar o excesso de pele.
BTD – O resultado das cirurgias está mais natural hoje em dia?
Amandio – E deve ser assim. Antes era luxo fazer plástica, parecer esticada era sinônimo de status. Hoje é bem diferente. A pessoa quer ficar pouco tempo afastada do trabalho, dos eventos sociais. Ninguém quer demonstrar que se submeteu a um procedimento cirúrgico.
BTD – O problema que houve recentemente com algumas marcas de silicones refletiu de forma negativa para os cirurgiões?
Amandio - Não. A imprensa foi muito incisiva divulgando as marcas que estavam com problema. Não me recordo de ter desmarcado uma cirurgia por conta disso. Acho que a divulgação tornou o público mais consciente do que estava ocorrendo.
BTD – Quando a mídia divulga a morte de alguém em decorrência da cirurgia plástica, há uma diminuição na procura pela cirurgia? Na década de 1990, um caso bem explorado foi o da modelo e atriz Cláudia Liz.
Amandio – A complicação dela foi anestésica, mas associou-se à cirurgia plástica como se não houvesse intercorrência com outras cirurgias. A imprensa nem sempre é imparcial. Ela na mostra o fato sob a ótica medica, cientifica, mas sensacionalista. Ate hoje esta no imaginário das pessoas que ela entrou em coma porque fez uma cirurgia plástica. Ela ia fazer, mas não fez. Podia fazer uma (cirurgia) hérnia e ter o mesmo problema. Ninguém divulga quantas pessoas morreram de complicação anestésica em outras cirurgias. As informações não são divulgadas. Cirurgia de celebridade chama a atenção, e quando acontece algum tipo de problema é bem explorado.
BTD – Qual o caminho acadêmico para se tornar um cirurgião plástico?
Amandio – Depois dos seis anos na graduação em medicina, se faz um concurso para residência em cirurgia geral, cuja duração mínima é de dois anos. Depois faz outro concurso para residência em cirurgia plástica. São 11 ou 12 anos de estudo até conseguir ser um cirurgião plástico. Depois, na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o aspirante faz outro concurso para tirar o título. No meu caso específico, fiz graduação na Ufba, residência em cirurgia geral no Hospital Roberto Santos, em Salvador, e cirurgia plástica em São Bernardo do Campo (SP).
BTD – O que o realiza na cirurgia plástica?
Amandio – A satisfação do paciente. Por mais que eu goste de cirurgia estética, em satisfação profissional eu me realizo em cirurgia reparadora. Na verdade, a diferença entre cirurgia estética e reparadora é muito tênue. Tudo que traz benefício é reparadora, que traz retorno de funções antes perdidas. A cirurgia plástica é dividida em áreas. Atuamos em cirurgia ‘craniomaxilofacial’, que mexe nos ossos da face, nas estruturas dos ossos, fraturas, traumas, deformidades congênitas, crianças que nascem com defeito no crânio; nas cirurgias ‘ortognáticas’, onde corrigimos ou avançamos a mandíbula, o maxilar; em tratamento de queimados, desde o atendimento aguado à melhora das funções e, se possível, à parte estética; nas reconstruções após a retirada de tumores. A cirurgia plástica é uma grande aliada da cirurgia geral, de cabeça e pescoço, porque consegue reconstruir. E isso não tem preço. A questão é que a gente tem compromissos, tem família, filhos, aí temos que ter consultório, montar uma outra estrutura porque essas cirurgias são associadas, em sua maioria, às pessoas de baixa renda e são feitas em hospitais públicos. Nestes casos, a remuneração acaba ficando muito baixa, o que impede que tenhamos dedicação exclusiva.
BTD – Há algum tempo li uma entrevista de doutor Ivo Pitanguy em que ele diz que a medicina embrutece. É isso mesmo?
Amandio – Não acho que torne a gente mais embrutecido. Hoje sou menos insensível do que era antes por experiência de vida, perdas e ganhos....Em algumas situações ficamos mais frios. Quando perdemos um paciente, a gente se envolve, se entristece. O fato de lidarmos todo dia com isso permite que tenhamos os pés no chão. Não porque não está se envolvendo, mas para permitir ajuda-lo da melhor forma. A racionalidade é que vai permitir ajudar o paciente.
Esta é uma entrevista para deixar bem nutrido de saberes qualquer cidadão, principalmente o soteropolitano. Numa abordagem corajosa, sem medos de possíveis "conflitos" com setores organizados da sociedade, aliás, como deve ser da natureza de todo intelectual, o professor de Geografia da UFBA, Clímaco Dias, trata de maneira saborosa, pois é saber e sabor andam juntos, temas pertinentes à condição humana na cidade do Salvador, além de falar de política, feminismo, luta negra, Carnaval e outras características da nossa querida metrópole e de sua gente. Tudo isso, com pitadas de muito bom humor, o que, talvez, seja a principal característica desse sergipano, de há muito já considerado baiano, ou uma espécie de isca para que os vários conhecimentos que detém, e que sabe expressar com maestria, nos envolva não só pela cabeça, como também pelo gastro. Leitura imperdível. Boa leitura. Por Edson Miranda
O jornalista Paulo Nogueira escreveu artigo em que denuncia a falta de ética do STF e da Rede Globo, ao descobrir que o Tribunal pagou a viagem de uma repórter da empresa à Costa Rica. É um fato que explica porque certas declarações de Barbosa ganham tanto impacto midiático. Vale a pena ler e se informar por vias diferentes das tradicionais.
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