

BAHIA TODO DIA - Candidato, por que o senhor quer ser prefeito de Salvador?
Hamilton Assis – Nós somos moradores da periferia de Salvador. Representamos hoje a maioria dessa população. Uma cidade historicamente negra governada pelas elites herdeiras dos nossos colonizadores e nunca teve um prefeito autenticamente saído da esfera popular. Para gente, essa é uma oportunidade. Nós queremos governar essa cidade, nós acreditamos que com o programa que estamos apresentando para a cidade, nós podemos governá-la de forma diferente, democratizando sua gestão, dando transparência e, sobretudo, desprivatizando essa cidade que esta sendo tomada pela máfia do transporte coletivo, da especulação imobiliária, da área de saúde e os segmentos que controlam a prefeitura de Salvador.
BTD – O que a gente observou é que os candidatos a vice da chapa de ACM Neto, Mario Kertész e Nelson Pelegrino são negros. Como o senhor avalia isso?
HA – Nós fizemos até uma brincadeira. Nós estamos chamando isso de chapa branca (oficial) com máscara negra. É uma estratégia histórica do marketing. Salvador é uma cidade que não tem como esconder sua identidade histórica, que tem o perfil de maioria negra, que nunca teve a oportunidade de ser governada por um segmento saído desse setor. Então, esse segmento tem mais é que mascarar suas candidaturas colocando os negros ou mulheres para fazer papéis coadjuvantes dentro do processo para que haja identificação com esses setores populares.
BTD – Quais são os principais projetos do Psol para Salvador, caso o senhor seja eleito prefeito?
HA – Nós estamos elaborando um programa para a nossa cidade. Ele tem três eixos. O primeiro eixo é a democratização da gestão pública, em que nós vamos fazer discussão com a população da cidade de como e quando fazer gastos e como arrecadar (recursos). O segundo eixo é a sustentabilidade urbana e ambiental porque nós precisamos pensar em uma cidade para ser deixada para as futuras gerações. Não é possível o descaso que está submetida a nossa cidade com o planejamento que é feito para atender os interesses da especulação imobiliária , dos donos dos transportes coletivos, que deixam o nosso povo enfrentando as mais diversas dificuldades em todos os sentidos, pela segregação espacial que ele sofre. O povo está segregado na periferia da cidade, leva quase duas horas para se deslocar para o trabalho que é geralmente no centro ou na parte orla da cidade e isso não é justo. Precisamos criar condições para esse povo viver dignamente e para isso precisamos transformar a periferia dessa cidade num canteiro de obra. Precisamos transformar essa cidade com obras de infraestrutura nos bairros com alta densidade como Sussuarana, Cajazeiras , no entorno do Cabula, próximo à Rótula do Abacaxi, na região que vai do Saboeiro, Engomadeira, Mata Escura. Está se construindo, mas não se está fazendo obra de infraestrutura para atender à demanda dessa população. Falta tudo. Faz conjunto (habitacional), faz estrada, mas falta posto de saúde, escola. A outra questão é sobre a efetivação da questão do direito. Essa cidade deve reparação histórica a essa população da periferia, os direitos elementares foram negados historicamente para atender os interesses da iniciativa privada e os interesses da máfia que controla nossa prefeitura. Nós precisamos garantir todo o direito que consideramos elementares. Nesse sentido precisamos garantir direito à saúde, educação transporte, segurança, moradia e emprego que culmina com o direito à vida.
BTD – O senhor falou muito no esquema de máfia da prefeitura. O que é esse esquema?
HA – Quem controla o transporte, em nossa opinião, não é a Secretaria de Transportes, mas o Seteps, que determina as ações do setor. Eles entraram com várias ações na Justiça alegando que a prefeitura esta devendo subsídios para eles. Os donos das empresas controlam tudo desde os números de linhas, as quantidades de horário que vai rodar, sobretudo, engarrafando o trânsito. Eles não pensam no transporte como algo para todos, mas para si. Então, esse é o exemplo que eu falo. Há uma máfia que se instalou e que dirige e controla a prefeitura a partir dos seus interesses. Na saúde é a mesma coisa. Nós temos o caso de Neilton, que foi assassinado e nós sabemos que a morta dele está envolta numa série de questões pouco esclarecidas. Ninguém sabe quem são os mandantes, mas os executores estão pagando e os responsáveis, não. Dos 2.600 estabelecimentos de saúde de Salvador, 465 são da rede conveniada do SUS. Desse total, apenas entre 136 e 138 são públicos. Mas de 90% são atendimento pela rede privada, que suga o dinheiro do SUS, que impede que façamos um atendimento de qualidade do nosso povo. Primeiro nós precisamos rever esses contratos, rever esses convênios. É daí que esta sendo sugado o dinheiro que podia oferece uma saúde melhor para o trabalhador, o morador da periferia. Através disso podemos aumentar o atendimento na rede médica que é fundamental para prevenir a questão de saúde.
BTD – Fala-se muito que a prefeitura de Salvador não tem dinheiro, que tem uma baixa arrecadação. Como o senhor vai fazer para implementar todos esses projetos?
HA – Primeira é dando um basta na corrupção, é desprivatizando a prefeitura , é colocando o dinheiro da prefeitura a serviço dos serviços públicos, particularmente daqueles que mais precisam. Precisamos discutir financeiramente, porque quem ganha mais dinheiro nesta cidade precisa pagar mais imposto. A gente não tem como resolver essa equação se a gente também não arrecada. Se por um lado vai conter a sangria dos recursos públicos impedindo que o setor privado se aproprie dele para seus interesses, do outro lado precisa ampliar as fontes de arrecadação. Temos que qualificar melhor os gastos da prefeitura e não tem outra forma de fazer isso, a não ser repensando essa estrutura montada até hoje. Portanto, uma das principais iniciativas faz parte da nossa estratégia e conhecer como funciona a máquina da prefeitura, ouvir os trabalhadores. Nós começamos fazer isso a partir de hoje. Fizemos contato com pessoal da Sucop e eles nos revelaram situações inimagináveis. Há denúncias que precisam ser apuradas pelo Ministério Publico. A nossa fábrica de asfalto produz 300 toneladas e não se sabe onde foi parar esse asfalto. E os trabalhadores que fiscalizam a saída desse asfalto durante dia, alegam que essa asfalto pode estar sendo desviado para Região Metropolitana, trocado por qualquer coisa para atender os interesses dos vereadores, do fisiologismo da nossa Câmara de Vereadores. O dinheiro que podia estar sendo usado para nossa cidade está sendo usada para articulação dos interesses políticos.
BTD - O senhor pretende rever a legislação ambiental?
HA – Claro. Nós vamos rever toda a legislação e propor uma ampla discussão sobre o controle dessa legislação no nosso governo. É indemissível o que João Henrique fez. Precisamos rever o descalabro feito com o uso das transcons, da liberação de alvarás da nossa cidade para as grandes incorporadoras... com isso o governo abriu mão de recursos que poderia chegar a R$1,5 bilhão. Com esse valor na prefeitura de Salvador dá para resolver alguns problemas crônicos que essa cidade tem e melhorar a qualidade de vida do nosso povo.
BTD – O candidato Mário Kertész, em entrevista ao BAHIA TODO DIA, disse ser o único candidato de oposição ao prefeito João Henrique. Outra coisa. Ele diz ser um crime ACM Neto (DEM) e Nelson Pelegrino (PT) se calarem diante dos problemas da gestão municipal. O que o senhor acha disso?
HA– Ele (Mário Kertész), de certa medida, também foi colaborador desta gestão. Eu recebi, recentemente, e vamos apurar, situações envolvendo antecipações dele em relação a licitações na área de transporte, na qual ele defendeu o setor em 2010, eu vou analisar com cuidado para não fazer denúncias infundadas. No mais, estão surgindo várias denúncias sobre o comportamento desse senhor em sua rádio, que ele usou para defender os empresários na época. A nossa população tem memória, a imprensa divulgou isso e nós acompanhamos e vamos apurar a relação dessa denúncia. Mas, fundamentalmente, nós sabemos que o senhor Mário Kertész não é a única oposição nessa cidade. Eles insistem em nos ignorar (...). Nós construímos a frente de esquerda, que forma conosco a Frente Capital da Resistência. Ele pode negar isso, mas todos os outros candidatos são chapa branca. O partido dele está na base do governo Dilma e ele não tem dúvida de dizer que vai governar com esses setores. Ele citou que, historicamente, nos últimos anos tem fortalecido os interesses do capital privado em detrimento do interesse da população mais pobre desse estado, desse país, dessa cidade.
BTD – Então, o senhor é o único candidato de oposição?
HA – Pelas características que nós apontamos, o único candidato com posições de esquerda somos nós. Agora, tem candidato de posição liberal que tem até outra proposta de governo, que pode até divergir de uma ou outra coisa, mas não pode ser caracterizado de oposição de fato. Precisamos explicar isso a nosso povo
BTD - O senhor fez parte do PT por muitos anos (25 anos) e foi, inclusive, da tendência de Nelson Pelegrino. Por que o senhor rompeu com o PT?
HA – O PT jogou na lata de lixo todo esse patrimônio histórico que nós construímos e que foi conquistado com muita luta e energia. Jogou tudo isso na lata do lixo, quando, para governar, teve que se articular com setores mais conservadores da nossa política. Esta aí a relação com José Sarney (presidente do Congresso Nacional), agora com Paulo Maluf(deputado federal por São Paulo) e todos os segmentos que nós negamos. Tudo isso para governar, o governo pelo governo. Não era isso que nós esperávamos do PT e isso fez que os sonhos, a utopia de uma sociedade mais justa, mais igualitária deixasse de ser pensada por esse partido. Foi por isso que nós nos lançamos para construir um novo partido. O Psol tem se colocado como essa alternativa que está em construção objetivamente, mas esperamos que venha adquirir, recuperar esse processo histórico, principalmente o democrático e popular que consideramos importante para implementar medidas transformadoras no nosso país. Especialmente com o deputado Nelson Pelegrino cheguei a participar do seu mandato. A principal divergência foi quando ele votou a favor da Reforma da Previdência, que foi o primeiro ato do governo Lula quando chegou ao poder. Nós dissemos para ele que seria uma injustiça com os trabalhadores porque naquele processo, era uma aceno que Lula dava de que não ia mexer nos interesses das elites. Como sempre, eram os trabalhadores que iam pagar as contas das mudanças. Nesse sentido, o PT não corresponde mais os nossos sonhos de mudança, de transformação da sociedade como nós esperávamos que ele fizesse, por isso estamos construindo outra alternativa e, é claro, o nosso programa de governo para Salvador também se inspira nessa perspectiva de uma cidade capaz de atender os interesses do nosso povo, que rompa com esses interesses históricos que segregou nosso povo na periferia, desprivatize a sociedade, democratize a nossa gestão permitindo que o nosso povo possa governar a nossa cidade.
Esta é uma entrevista para deixar bem nutrido de saberes qualquer cidadão, principalmente o soteropolitano. Numa abordagem corajosa, sem medos de possíveis "conflitos" com setores organizados da sociedade, aliás, como deve ser da natureza de todo intelectual, o professor de Geografia da UFBA, Clímaco Dias, trata de maneira saborosa, pois é saber e sabor andam juntos, temas pertinentes à condição humana na cidade do Salvador, além de falar de política, feminismo, luta negra, Carnaval e outras características da nossa querida metrópole e de sua gente. Tudo isso, com pitadas de muito bom humor, o que, talvez, seja a principal característica desse sergipano, de há muito já considerado baiano, ou uma espécie de isca para que os vários conhecimentos que detém, e que sabe expressar com maestria, nos envolva não só pela cabeça, como também pelo gastro. Leitura imperdível. Boa leitura. Por Edson Miranda
O bancário e militante comunista Geraldo Galindo visitou recentemente a Palestina. Conta neste artigo o que viu na "terra santa", lugar onde a mistura de religião e política inspira preconceito, racismo, dominação política e genocídio. Um relato de quem esteve lá, agora, e não somente ouviu falar.
Bahiatododia - o site da notícia - © Copyright 2011 | Todos os direitos reservados. Política de privacidade